ARTISTA VENCEDOR DO PRÊMIO DASARTES 2021

Social Jungle

Trabalhos organizados de Washington da Selva

Millena Lízia

Rio das Ostras, RJ.

Dezembro de 2020.

Foi durante um meet terapêutico da última sexta-feira que dispomos a trabalhar o tema da coragem. Este tema, aliás, vem me atravessando em diferentes experiências do viver em escutas atentas às múltiplas forças atuantes (nomeáveis e não-nomeáveis) que sempre se fazem presentes – sem dúvida alguma. Pois, sim, há aqueles movimentos que nos visitam nas esferas sensíveis em que a linguagem apenas pode se dobrar e se desdobrar, se virar e se revirar. E é junto disso que nos revolvemos, remexemos e (re)criamos o espírito – em gestos culturais (em gestos de cultivos, vale dizer) que nos ligam a tudo e a todas/es/os e evidenciam pelo meio (negociando o por fim) nossas complexidades nas aparentes simplicidades do viver. 

 

Questão material-energética, 

nas esferas da cor, 

transportada pelo pó dos tempos:

– Como criar corpo nesses territórios cheios de fantasmas?

 

Talvez as forças materiais-energéticas que me atravessam 

me façam ler também como questão pictórica 

o tema da coragem: 

 

cor-movimento

– o apelo ao agir, 

ao fazer que intui mundos e (en)trama a reorganização das estruturas. 

São muitas as camadas e as urgências por remendos.

 

De encontro ao osso e dentes: 

– os terrenos-ocidentes que habitamos 

(revolvemos, remexemos e (re)criamos o espírito) 

são aqueles dos acidentes. 

 

#cas(c)as-(re)me(n)dos#

E-ventar nas frinchas a flecha

 

Escavando o porquê da escolha da coragem como tema em nossa sessão, Paula, por meio de suas ativações, me fez transitar da coragem para o desejo de me sentir segura, protegida. Logo a conversa se desdobrou convocando o tema da casa e em algum ponto era sobre a pele que discorríamos. Mas tivemos que interromper, ou, no mínimo, chamar atenção para o que se dava, pois fui tomada por um comichão que me fez percorrer todo o corpo em cócegas. A experiência tátil culminou com um encontro, um encontro marcante (ou marcado) com uma pequena casca em meu braço direito proveniente de alguma ranhura desconhecida até então. Poucas horas antes, em reunião via videochamada com Ton (como Washington da Selva se apresentou pra mim quando nos conhecemos virtualmente), especulávamos justamente o quanto os bordados em suas obras não traziam para superfície alguma casca que as interfaces via touch screen e similares não nos permitiam alcançar, nos afastando das rugosidades que nos permeiam. 

 

As imagens das séries Social Jungle, Familiar screen, Estranho familiar e Atravessadores, realizadas por da Selva entre os anos de 2019 e 2020, chegam pra mim por meio de envios eletrônicos após o convite do artista para a composição deste ensaio. A ocasião da escrita vem acompanhada pela realização de sua mostra individual contemplada pelo Prêmio Janelas Abertas. Organizado pela Pró-reitoria de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, como medida de apoio ao setor artístico diante da pandemia do Covid-19, o prêmio se volta ao fomento de projetos em diferentes formatos digitais a serem exibidos nas redes sociais dos setores culturais da Universidade.

 

E foram mais especificamente nas plataformas presentes em meu aparelho de celular que recebo de Ton o convite para esta parceria que passa pelos verbos, além dos envios dos registros de seus trabalhos presentes na exposição. Difícil não narrar o meu deslumbre com aquelas imagens do celular bordadas pelo artista se atentando às pessoas e ao próprio aparelho móvel como temas, como forças materiais-energéticas que o/nos atravessam – ainda mais diante desses contextos pandêmicos em que o afastamento social se tornou uma medida de preservação das vidas, em que as interfaces digitais se transformaram para muitas/es/os a própria possibilidade de compor as dinâmicas sociais.

 

Washington, filho de trabalhadores da terra (como também se apresenta), narra  que os bordados foram produzidos a partir de imagens capturadas por sua mãe, Dona Maria Aparecida, da câmera de segurança instalada em 2019 em sua casa na cidade do Carmo do Paranaíba, distrito rural de Minas Gerais. Transitando entre medidas de proteção em relação às violências para as esferas mais calorosas, esses registros  trocados entre mãe e filho distantes acabavam por desempenhar o papel de transmitir um para o outro notícias de casa e da cidade da infância. 

 

Me pergunto o quanto essas imagens das câmeras de segurança reinterpretadas nos bordados das séries Social Jungle, Familiar screen e Estranho Familiar não teriam a potência de ecoar as discussões do quanto todo e qualquer conteúdo que fazemos circular a partir de nossos aparelhos móveis, incluindo as trocas mais afetuosas, não estariam sob regime dos esquemas de vigilância de nossos tempos.

 

Contudo os bordados das imagens do celular, reproduzindo as capturas da câmera de segurança, instauram outras relações nessa trama do íntimo e o pessoal que não se confundem mais com o privado. Quando divido meu aparelho celular com a minha mãe, chamada Sandra, aqui por casa (no interior do estado do Rio de Janeiro) com as imagens da exposição Social Jungle a observação que ela me oferece é de que quanto mais a gente tenta aumentar as imagens com os recursos da tela menos conseguimos vê-las. E o que se evidencia, portanto, são as linhas, os emaranhados e a sensação de que nem tudo o que vemos sabemos ou apreendemos. Talvez sejamos nós as/es/os apreendidas/es/os.

 

Quando teço o comentário com Ton de uma possível abordagem voyeur de suas produções, em conversas com as imagens registradas por sua mãe, o que ele me retorna é que uma discussão francesa, passando inclusive pela idéia de flâneur, não caberia exatamente aqui, pois aquelas imagens não retratam passantes gozando de seus direitos cívicos de entretenimento no espaço público, mas de passantes que têm com suas caminhadas alguma ligação que passam pelas relações de trabalho. A partir desse posicionamento me parece oportuno sublinhar que nem mesmo um ideal romântico ou bucólico em relação ao campo, a zona rural, caberiam aqui, pois os conflitos ligados à terra e as violências aí desencadeadas fundam, ou, melhor, forjam a nação.

 

Aproveitando os deslocamentos pontuados pelo artista, em algum ponto me pareceu propício trazer pra cá, ainda, a atualização proporcionada pelas discussões da colonialidade em torno da divisão do trabalho, na qual as dinâmicas de exploração operária deve ser repensada para além das dinâmicas entre o topo e a base da pirâmide social, pois a estrutura da modernidade colonizante não se faz de forma tão linear.  A trama em que estamos submetidas/es/os faz com que trabalhador/a/e tire vantagem de trabalhador/a/e – e essas dinâmicas ganham lugar de proeminência nessas circunstâncias da pandemia em que os abismos sociais se escancaram entre aquelas/es que estão mais próximas/es/os do conforto e da segurança de seu lar, trabalhando via home office (contando, inclusive, com os auxílios dessas plataformas digitais-eletrônicas neoliberais que a gente vem conversando, apesar de todas as capturas) e aquelas/es que estão fazendo seus corres na rua, fora de suas casas, nas propriedades alheias, estando sujeitas/es/os a toda sorte de riscos, agora agravados com mais uma camada. E os marcadores sociais, principalmente os das tecnologias da racialidade e do gênero, são estruturantes desse debate aqui.  

 

Mas tem também aquela história: quando o debate se amplia nem sempre se consegue ou se quer ver. O que não significa que as linhas de forças não estejam aí nos atravessando. E pra essa discussão não cabem nem molduras, ela é encarnada.

 

As linhas tecidas por Washington da Selva num primeiro momento me fez experienciar todo um deslocamento entre as temporalidades distintas entre o registro eletrônico e a costura da cena que refaz o registro. Mas este refazer é repleto de vazios, de não completudes. Os corpos alinhavados quase sempre sozinhos, me fizeram sentir, em seguida, a sensação de solidão. Mas nunca se está verdadeiramente sozinha/e/o nesses territórios cheios de fantasmas. E talvez a relação entre figura e fundo nos desenhos, com o preenchimento da figura se destacando do espaço aberto, transparente, façam ecoar as vozes de espíritos cansados gritando “crie corpo, menino/a/e!”

 

Não são apenas nossas ranhuras que precisam de remendos. Não a toa o final da sessão que começou com o tema da coragem, mas que se transformou no desejo profundo do livre fluir em segurança, terminou com um cheiro de carne fresca entranhado nas minhas narinas.

 

#cas(c)as-(re)me(n)dos#

Inventar nas frinchas a flecha

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Millena Lízia é uma existência nesse mundo em busca de uma caminhada com dignidades e saúdes. Planta e deseja colher. Busca as simplicidades, pois as coisas mais banais lhe chegam com camadas de desafios e complexidades. Tem visto em suas mãos seu coração. Se reconhece como pesquisadora e artista contemporânea-ancestral-pra-depois-do-ano-2000, pelo menos é assim que vem se organizando desde as agitações diaspóricas das experiências pictóricas-epidérmicas vividas – apenas mais uma forma possível de apresentação, que deseja apontar que seu campo de atuação se faz na vida, nas relações, nos deslocamentos, nos enfrentamentos e nas fugas a partir da produção de imaginários. 

Vem colaborando desde 2010 com diversas produções, rodas, proposições educativas, publicações e exposições coletivas. Compõe, sendo uma das articuladoras, o CIPEI - Círculo Permanente de Estudios Independientes (México-Brasil), plataforma de investigação de contra-pedagogias e contra-visualidades e vem oferecendo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ) o curso “Experiências Epidérmicas/Epidêmicas: movimentos para organizações de cadernos de artistas-pesquisadoras”.

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Ateliê Setembro 2020